Belmira

Depois de ouvir a história da Belmira eu fui pesquisar o significado do nome dela, mania minha, desde criança, gostar de saber significados dos nomes das pessoas.

A pesquisa no Google me contou: é “aquela que vê o futuro”. Fez sentido. Belmira faz sentido.

Não deve ser fácil ver o futuro quando o presente se mostra tão intensamente adverso. Mas Belmira via.

Nasceu em Portugal, em 1950, e 8 anos depois veio para o Brasil. Não é fácil ser imigrante no mundo hoje, não era fácil ser imigrante no mundo há 59 anos. As colegas da escola rasgavam seu uniforme e destruíam seu material escolar. Na vinda para o Brasil perdeu um ano de estudos, mais velha que os outros alunos, começou a ter sua inteligência questionada pelos companheiros de classe. Aos 9 anos já tinha que provar que era capaz, que era possível.

Descobriu o preconceito muito cedo, descobriu muito cedo também o peso de ser mulher num mundo de tantos homens.

Aos 13 anos, terminando a quinta série do ensino fundamental, queria seguir estudando e não podia. Era mulher, e como tal precisava lavar, passar, cozinhar e costurar. Precisava casar, arranjar um bom marido. Ser mulher. E pra ser mulher, estudar não está no roteiro.

Ainda criança, passeava na Praça Clóvis Beviláqua em São Paulo e ficava extasiada diante de um prédio bonito que tinha por ali. Tinha a certeza que um dia entraria nesse lugar, embora não soubesse nem mesmo o que era.

O plano então era seguir o plano até onde precisava e depois fazer o que queria. Cozinhava, limpava e passava. Casaria sim, o mais rápido possível, e depois disso voltaria a estudar. Casou aos 20, livre da autoridade dos pais, achando ser livre de fato, se viu sob um novo domínio, o de seu marido. Estudar seguia não sendo uma opção. Não era nem uma ideia possível de ser discutida.

Teve três filhas, essas estudaram, Belmira fazia questão. Todas formadas, encaminhadas, vida completa, ou quase.

Faltava algo, faltava estudo.

Foi na cartomante que ela descobriu que dava tempo, que ouviu que seu sonho era possível. Se a cartomante consegue mesmo ver o futuro eu não sei, mas Belmira consegue, só faltava alguém lembrar isso pra ela.

E foi assim, reunindo uma coragem latente e a certeza do que queria, que ela decidiu entrar no supletivo, aos 46 anos.

A oposição foi de todos. Ouvia em casa que tinha caído na prostituição, que ia para a escola atrás de homens. Alguns homens têm dessas, eles às vezes não entendem que as mulheres andam atrás de sonhos, não deles.

Mas Belmira sabia pra onde ia, sabia onde seu coração estava, e mesmo com as brigas diárias, mesmo com família toda contra, mesmo ouvindo de sua sogra que seu marido “não podia com ela nessa nova vida”, mesmo separando do marido por um tempo, mesmo sendo acusada por suas próprias filhas de deixar sua família desmoronar, mesmo com muito choro, com muita dor, resistia.

Resistindo concluiu seu ensino médio. Começou um técnico de contabilidade, passou no vestibular e por medo não contou para ninguém.

Aos 50 anos começou a faculdade de Direito. Se formou no dia do aniversário de seu marido. O presente pra ele foi entender, finalmente, a mulher fantástica que tinha em sua vida.

Aos 67 anos, Belmira Pereira Serafim Dias é advogada e pós-graduada.

O prédio bonito da Praça Clóvis Beviláqua, hoje mais conhecida como Praça da Sé, é o Tribunal de Justiça de São Paulo, desde criança sabia que entraria ali, e ali entra todos os dias.

Belmira é aquela vê o futuro.

Belmira faz sentido.

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